NOTÍCIAS
Apagão logístico
O Estado de S.Paulo
Congestionamento nas estradas, enormes filas de caminhões nos portos,
navios parados ao largo à espera de espaço para atracar, falta de espaço nos
armazéns e prejuízos assustadores - este cenário é bem conhecido, mas o quadro
poderá ser pior no próximo ano, avisam produtores rurais e líderes do
agronegócio. O apagão logístico há vários anos previsto por especialistas e
empresários do setor poderá finalmente ocorrer, se a próxima colheita de grãos
e oleaginosas for tão boa quanto se espera. Boa parte da segunda safra de milho
deste ano ainda estará nos armazéns, no começo de 2013, quando os plantadores
de soja precisarem de espaço para acomodar uma produção provavelmente recorde,
por enquanto estimada em 80 milhões de toneladas. A "safrinha", nome
tradicional da segunda safra de milho, deve totalizar 34,6 milhões de
toneladas, estima a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Empresários, técnicos e dirigentes de associações de vários Estados
produtores, entrevistados pela Agência Estado, traçaram mais uma vez o velho
quadro paradoxal: notícias de boas colheitas são prenúncios de muita dor de
cabeça para produtores, processadores e exportadores.
O agronegócio continua dando uma ampla contribuição para o saldo
comercial do País. Mesmo com a queda de preços de vários produtos, no primeiro
semestre, o setor manteve um superávit de US$ 36,7 bilhões entre janeiro e
junho e de US$ 79,4 bilhões em 12 meses, segundo o levantamento mensal do
Ministério da Agricultura. Os problemas de logística são parte da rotina do
agronegócio e tendem a ficar cada vez mais graves, porque os investimentos em
conservação e expansão da infraestrutura nem de longe acompanham o crescimento
do volume colhido.
Neste ano e no próximo, a quebra da produção americana, por causa da
seca, abre perspectivas de bons negócios para os produtores brasileiros, por
causa da alta de preços no mercado internacional. As cotações são atraentes
para quem dispõe do chamado milho safrinha, normalmente plantado depois da
colheita da soja, e para quem planeja o plantio da próxima safra de verão.
A área destinada à soja, segundo estimativas correntes, deverá ser 10%
maior que a da temporada 2011-2012. Dirigentes e técnicos de associações de
produtores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná já apontam dificuldades
para o escoamento do milho recém-colhido ou em processo de colheita. Os
armazéns são insuficientes.
Além disso, as velhas dificuldades logísticas foram agravadas pelas
greves de servidores da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) e, nos últimos dias, pela paralisação de caminhoneiros. A
ameaça de greve de mais uma categoria, a dos fiscais federais agropecuários,
era apontada, na sexta-feira, como mais uma preocupação para produtores e exportadores.
Alguns técnicos preveem escassez de caminhões para a próxima safra de
verão. É um recado para a indústria e para os bancos financiadores de
equipamentos. Mas o aumento da oferta de caminhões só resolverá parte do
problema. É preciso cuidar das vias de transporte. A recuperação da Rodovia
BR-163 (Cuiabá-Santarém), hoje em muito más condições, criaria uma alternativa
mais econômica para escoamento de 30% da produção mato-grossense, sugeriu o
presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso,
segundo a Agência Estado. Especialistas poderiam multiplicar os exemplos de
obras necessárias para baratear a movimentação das safras. Investimentos em
hidrovias, outra possibilidade citada com frequência, permitiriam transportar a
produção do Centro-Oeste para os portos da Região Norte e evitar o longo e caro
trajeto até os terminais do Sudeste e do Sul.
Para cuidar do risco do apagão logístico, no entanto, o governo
precisará enfrentar uma deficiência interna - o apagão de sua capacidade de
planejamento, de administração e de execução de projetos. A quase paralisia do
Ministério dos Transportes, depois da faxina parcial do ano passado, é apenas
um dos sintomas do problema. As disfunções da máquina federal ameaçam travar o
setor mais competitivo da economia nacional, o agronegócio.
OESP – 05.08.2012
Nenhum comentário:
Postar um comentário