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O País refém dos grevistas
O Estado de S.Paulo
O Brasil é refém dos funcionários empenhados em arrancar do governo
federal novos aumentos salariais e a continuação das benesses criadas pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais de 300 mil grevistas - 350 mil,
segundo a confederação dos servidores - estão envolvidos numa indisfarçável
tentativa de extorsão, praticada por meio de ameaças e de abusos contra os
pagadores de impostos. Enormes congestionamentos já foram provocados em
estradas de sete Estados e do Distrito Federal pela ação truculenta de
policiais. O tráfego foi quase paralisado por nove horas na Ponte Rio-Niterói.
O movimento de portos e aeroportos foi prejudicado e o movimento de exportação
e importação de mercadorias, incluídos produtos com fins medicinais, vem sendo
prejudicado há semanas. Em Brasília, policiais federais protestaram diante do
Palácio do Planalto e só foram detidos antes da rampa pela intervenção da
Polícia Civil.
Posto em xeque, o Executivo ameaça reagir, estimulando a substituição do
pessoal em greve por funcionários estaduais e municipais, mas até agora sem
sucesso. Ao mesmo tempo, ministros anunciam a intenção de negociar com as
categorias envolvidas na paralisação. Nenhum representante do governo se
arriscou, no entanto, a qualquer compromisso em relação a aumentos salariais ou
a qualquer outro benefício financeiro. Será preciso abrir espaço a marretadas,
no Orçamento-Geral da União, para atender mesmo parcialmente às pretensões das
categorias em greve.
Técnicos da área econômica e financeira do Executivo já enfrentam graves
dificuldades para montar uma proposta orçamentária compatível com os incentivos
prometidos à indústria pela presidente Dilma Rousseff e pelo ministro da
Fazenda, Guido Mantega. Os compromissos do Plano Brasil Maior foram inflados
pelos congressistas, nos projetos de conversão das Medidas Provisórias 563 e
564, recém-aprovados. Mesmo com a eliminação dos penduricalhos acrescentados
pelos parlamentares, será difícil compatibilizar os estímulos fiscais com as
limitações de um Orçamento já muito inflexível e exposto aos efeitos da crise
econômica.
Os ministros e a presidente Dilma Rousseff têm invocado as dificuldades
da economia para desencorajar reivindicações muito ambiciosas do funcionalismo.
Segundo o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho,
a prioridade do governo é "usar o espaço fiscal para cuidar do emprego
daqueles que não têm estabilidade". Em outras palavras, o objetivo
central, neste momento, é enfrentar a crise e impedir a demissão de
trabalhadores sujeitos aos riscos do mercado, uma condição desconhecida pelos
funcionários públicos. O ministro está certo, mas sua mensagem será
provavelmente desprezada pelos grevistas do setor público.
Eles se acostumaram, durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, a ser tratados como um grupo social privilegiado. Desde o começo
da gestão petista, o custo per capita dos funcionários do Executivo cresceu
170% em termos n0minais, enquanto a média dos preços aumentou 70%. Empregados
do setor público federal ganham hoje mais que os profissionais do setor privado
e ainda têm vantagens quase sempre inacessíveis ao pessoal do setor privado, a
começar pela estabilidade.
Boa parte desses benefícios foi concedida quando a atual presidente
comandava a Casa Civil. Integrou o núcleo do governo. Teve condições de
interferir na política econômica e de aconselhar prudência gerencial. Não
parece, no entanto, haver-se esforçado para promover a racionalidade e combater
a politização evidente da administração do pessoal. Hoje colhe os resultados
daquela política temerária.
Nem mesmo seu partido, tradicionalmente ligado ao funcionalismo federal,
parece em condições de oferecer à presidente a ajuda necessária para um
entendimento razoável com os grevistas. Estes, sem regras e sem controle
político ou institucional, pressionam o governo usando o País como refém. As
limitações orçamentárias são apenas o segundo problema da presidente Dilma
Rousseff, nesse caso. O primeiro - e muito mais complicado - é político.
OESP – 10.08.2012
$ 2,5 bi em produtos aguardam liberação
O Estado de S.Paulo
A greve dos servidores públicos, que ontem se estendia pela Receita
Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Ministério da
Agricultura, não teve ainda grande impacto na economia, mas preocupa alguns
setores. Já chega a US$ 2,5 bilhões o valor dos produtos que aguardam liberação
nos portos do País. No aeroporto de Guarulhos, o terminal de cargas
refrigeradas não tem capacidade para receber novas cargas.
O presidente do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros do Estado de São
Paulo (Sindasp), Valdir Santos, adverte que, no Porto de Santos, a saída tem
sido acionar a Justiça para liberar as mercadorias: "Hoje há mais de 180
mandados de segurança. E o número tende a aumentar".
"A situação não é alarmante, mas em dez dias começaremos a ter
problemas sérios", resume Nelson Mussolini, do Sindicato da Indústria de
Produtos Farmacêuticos, sobre o setor de medicamentos. No setor de carne, a
greve interrompeu a emissão de certificados sanitários para embarque de
produtos. Segundo o setor exportador, nenhum certificado foi emitido ontem, nos
portos de todo o País, e apenas 30% do habitual nos frigoríficos. "Não há
frigorífico parado, e o abate vem ocorrendo. Mas as câmaras de armazenamento
estão ficando cheias e em mais alguns dias os frigoríficos podem parar",
avisa o presidente da Abipecs, Pedro de Camargo Neto.
Os fiscais agropecuários reivindicam, no movimento, aumento salarial e a
contratação de mais servidores. Em Santa Catarina, o setor de alimentos calcula
que, se a greve prosseguir, o fornecimento interno poderá ser interrompido ou
reduzido. "Já tem empresa guardando os produtos em caminhões. Algumas
empresas vão parar amanhã ou sábado", diz Clever Ávila, do Sindicato de
Carnes do Estado. / LUIZ GERBELLI, TIAGO CISNEROS, VANESSA BELTRÃO, DANIEL
CARDOSO e JULIO CESAR LIMA
OESP – 10.08.2012
Servidores em greve realizam operação
Em
meio à greve da categoria, auditores da Receita Federal, policiais federais e
servidores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizaram uma
operação conjunta e minuciosa, no início da tarde de ontem, no Aeroporto Pinto
Martins, com o objetivo de mostrar como deve ser feita a fiscalização nas
bagagens e documentos dos passageiros que transitam pelo terminal.
A
fiscalização minuciosa das malas e documentação foi feita no embarque e
desembarque dos voos domésticos e internacionais e durou das 12h às 14 horas.
Por conta do trabalho mais minucioso e da diminuição do efetivo, o fluxo nas
fila de embarque foi maior.
Os
grevistas exigem, principalmente, a reestruturação da carreira dos agentes e um
reajuste salarial. A greve tem 100% de apoio da categoria, mas 30% do efetivo
continuam trabalhando, conforme determinação legal.
"O
que fizemos no aeroporto de é uma atividade que deve ocorrer rotineiramente,
mas, por falta de efetivo, isso não acontece. Queremos que a sociedade e o
governo vejam a importância do nosso trabalho, a forma com a qual ele realmente
deve ser realizado", declara Edilson Lins, diretor do Sindicato dos
Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil no Ceará (Sindifisco/DS-CE).
Ainda
conforme Edilson, ao fiscalizar de maneira correta as mercadorias, os policiais
federais estão contribuindo para a inibição de crimes, como a entrada e saída
de materiais ilegais. "Com o aumento do nosso salário e da quantidade de
efetivo, nossa função poderá ser realizada de maneira justa e melhor",
opina. Segundo Edilson, a categoria não recebe aumento salarial desde 2008.
O
presidente do Sindicato dos Policiais Federais, Carlos Onofre Façanha, afirmou
que, por pedido do Ministério da Justiça, a operação padrão com fiscalização
minuciosa não irá mais acontecer para evitar transtornos nos embarques e
desembarques do aeroporto. O Estado do Ceará conta, aproximadamente, com 800
policiais federais. Sendo que, no aeroporto, somente 12 deles se alternam em
equipes de três para fiscalização.
Anvisa
Segundo
Raimundo Cunha Filho, servidor fiscal da Anvisa, agência reguladora que também
atua nos aeroportos e está em greve desde 16 de julho, todas malas foram
revistadas no horário. Com a operação mais criteriosa, ele espera tornar visível
as exigências das agências.
A
assessoria de comunicação da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura
Aeroportuária (Infraero) informou que não houve atrasos nos voos durante a
fiscalização. Das 00h às 14 horas de ontem, só dois voos saíram depois do
horário previsto e estes foram durante a madrugada, portanto, sem ter ligação
com a intervenção dos policiais.
Ainda
conforme a assessoria, o período que antecede as 18h é o mais congestionado no
terminal devido ao fechamento da pista que, atualmente, passa por uma reforma e
fica sem receber pousos e decolagens no horários das 6h às 12 horas.
A
operação padrão dos policiais federais faz parte de um movimento nacional e
também aconteceu nos aeroportos de outros Estados, como São Paulo, Rio de
Janeiro e Bahia. Durante assembleia, ontem, eles decidiram manter a greve.
Todas
as agências reguladoras do País estão em greve. Entre outras questões, eles
exigem política salarial permanente.
Diário do Nordeste – 10.08.2012
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