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Greve do funcionalismo: leis a favor da minoria
Jorge Peixoto Vasquez
Quando o governo compra serviços de um grupo de pessoas, ou seja, de uma
empresa, é obrigado a seguir uma série de procedimentos para obter o menor
preço, resguardada a qualidade. Quando o fornecedor é um indivíduo, um servidor
público, tudo muda: a contratação passa a seguir regras que, aplicadas a uma
entidade privada, seriam consideradas escandalosas. No primeiro caso há uma
tentativa de respeitar o dinheiro da população. No segundo essa preocupação
desaparece. Observando as notícias da greve de funcionários públicos que ora se
desenrola, fica evidente que boa parte do Estado brasileiro serve a indivíduos
em detrimento da população em geral.
Fornecedor é fornecedor, não há diferença se presta o serviço sozinho ou
em grupo. No lado privado da economia, afora regulamentações trabalhistas
arcaicas, é assim que as coisas ocorrem. Claro que, em troca da exclusividade
(ainda que tácita, por causa do volume de trabalho contratado) embutida numa
relação de trabalho, o contrato, ainda que livre das amarras da lei, usualmente
incluirá provisões de proteção ao trabalhador, como aviso prévio em caso de
encerramento, indenização por rompimento unilateral (demissão) e até regras de
reajuste do valor do serviço. É exatamente o mesmo ao se contratar porção
significativa da operação de uma empresa.
No setor público, entretanto, o contrato com os fornecedores isolados é
absurdamente desvantajoso para o Estado. Imagine que o síndico do seu prédio
resolvesse contratar funcionários com cláusulas de estabilidade permanente,
salários muito acima dos pagos no seu bairro ou na sua cidade e benefícios como
pensão integral: você acharia que esse síndico estaria cuidando bem do dinheiro
dos condôminos? Com o governo é ainda pior, pois você não pode mudar de país
sem incorrer num custo muitas vezes proibitivo. E, para completar, os próprios
funcionários votam e influem na eleição dos governantes.
Este último argumento merece ser explorado mais pausadamente: o peso
desproporcional que o lobby dos funcionários públicos tem sobre o governo.
Pensando em termos de incentivos, pode-se entender o que ocorre. Imagine que
seja proposta uma legislação que favoreça os funcionários públicos em R$ 1
bilhão. Os funcionários federais, em torno de 1 milhão, podem gastar até
aproximadamente R$ 1 mil cada um para influenciar sua aprovação e ainda sair no
lucro. Esse gasto pode-se dar, por exemplo, no apoio do sindicato da categoria
a um ou outro candidato ou partido político. Por outro lado, os 190 milhões de
brasileiros que pagarão a conta sofrerão, de uma forma ou de outra, um custo
adicional médio de cerca de R$ 5,26 cada um. Ora, não só é mais difícil
organizar a população inteira, como o benefício individual (deixar de pagar os
R$ 5,26) de qualquer mobilização nesse sentido certamente será menor que o
custo (ainda que de tempo) de dedicar-se a tal intento.
Não é de espantar, portanto, que a combinação do sistema democrático de
representação com a existência de funcionários públicos leve inexoravelmente a
um crescente aumento dos privilégios desse grupo.
Uma questão paradoxal que diz respeito à remuneração dos servidores
públicos e aos incentivos que o sistema político acaba por criar:
diferentemente do que ocorre na iniciativa privada, no setor público premia-se
o fracasso com aumento de verbas e salários. Por exemplo, estamos em época de
eleições e, segundo os recentes resultados do Ideb, sabemos que a educação
avançou muito pouco e continua péssima. Mesmo assim, o que prometem os
candidatos a prefeito? Aumentar salários de professores e funcionários. Em
outras palavras, no governo, se os funcionários fizerem um péssimo trabalho, o
mais provável é que eles venham a ser recompensados com aumentos. O resultado
desse sistema é perverso e previsível: serviços públicos caros e de má
qualidade.
Um último aspecto da questão da remuneração do funcionalismo público
merece ser abordado. No livre mercado, duas forças determinam os salários: as
leis de oferta e demanda e o valor do trabalho realizado. Ninguém em sã
consciência bate à porta do chefe para pedir um aumento que tornará seu custo
para empresa maior do que o incremento de receita causado por sua atividade,
pois nenhuma empresa pode operar no prejuízo indeterminadamente sem falir.
Assim, existe uma barreira para o salário de qualquer funcionário privado, que
é o valor agregado pelos serviços que presta. Mesmo um movimento de
cartelização, como a formação de sindicatos com objetivos de negociação
coletiva, não pode mudar essa lei econômica, pode apenas agir sobre a oferta e
a demanda. Ora, a negociação de salários de funcionários públicos é descolada de
ambas as forças e, por isso, é mais ou menos como jogar pôquer apostando grãos
de feijão sem valor algum. Totalmente irracional.
Primeiro, não há como determinar valor agregado ao governo, já que ele
não objetiva o lucro. Isso vale para qualquer entidade sem fins lucrativos,
como condomínios. Mas, diferentemente de entidades privadas, o governo não tem
como comparar no mercado os salários pagos a seus funcionários, afinal, ele
mesmo se outorga monopólios em praticamente todas as áreas em que atua. Segundo,
as leis de oferta e demanda simplesmente não funcionam quando é impossível
demitir ou reduzir salários, sendo as contratações vitalícias.
Inescapavelmente se conclui que, com as leis que temos, e das quais não
nos podemos livrar, dados os incentivos do sistema democrático, cada vez mais
os servidores públicos serão uma casta de privilegiados a consumir o dinheiro
subtraído à força dos demais cidadãos. A única saída para salvar parte de nosso
suado dinheiro é diminuir significativamente o quadro de servidores,
transferindo para a iniciativa privada, ainda que via terceirizações, boa parte
das atividades hoje executadas diretamente pelo Estado.
* EMPRESÁRIO, É PRESIDENTE DO INSTITUTO DE FORMAÇÃO DE LÍDERES DE SÃO
PAULO (IFL-SP)
OESP – 24.08.2012
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